Ah, esses loucos por gatos!
Quietos, silenciosos e independentes, os gatos ganharam a afeição de gente como Franz Kafka, Charles Bukowski, Patricia Highsmith, Lygia Fagundes Telles, João Guimarães Rosa e os poetas Carlos Drummond de Andrade e Ferreira Gullar.
"Dar nome aos gatos é um assunto traiçoeiro", escreveu T.S. Eliot, criador de poemas infantis que narravam a vida de um grupo de felinos, reunidos no livro Os Gatos (Companhia das Letrinhas), que serviu de inspiração para o musical Cats. Para ele, o animal deveria ter três nomes: o comum, o apelido e aquele que só o gato sabe.
Mark Twain, outro grande baluarte da literatura, deu nomes tão curiosos quanto misteriosos aos seus gatos, como Appolinaris, Beelzebub, Satan, Sin, Sour Mash e Zoraster. Já Alexandre Dumas (
O Conde de Monte Cristo) tinha um gato chamado Mysouff, conhecido por sua apurada percepção de tempo. Todo dia, ele encontrava seu dono em um determinado lugar para acompanhá-lo da sua casa para o trabalho. Edgar Allan Poe era dono da elegante Catarina, que inspirou o conto
O Gato Preto.
Já o argentino Julio Cortázar era fã de Teodoro W. Adorno, seu felino de estimação que exibia um ilustre sobrenome, uma homenagem ao filósofo e sociólogo alemão. Mas o animal não era chegado a intelectualidades. No livro A volta ao Dia em 80 Mundos (Civilização Brasileira), Cortázar conta que, enquanto brincava com Teodoro, se esquecia das memórias. Difícil imaginar o escritor rolando com o bichano na grama ou criando novelos de bolas de papel com os manuscritos de obras que recebia em Paris.
O escritor Julio Cortázar com seu gato Teodoro
Nem mesmo o mais rabugento escritor, o americano William Burroughs, escapa da admiração pelos felinos. No livro
O Gato por Dentro (L&PM Editores), o pai dos beatniks, conhecido pela verve sarcástica, mostra o seu lado doce e sentimental, revelando que os gatos podem ser excelentes espelhos da condição humana. Para ele, até mesmo a fúria de um gato pode ser bela.
Outro famoso argentino, Jorge Luis Borges, dedicou dois poemas a esses bichinhos fofos e peludos: A um gato e Beppo, este um gato branco da família. Pablo Neruda também fez jus à tradição e assinou sua admiração aos felinos na poesia Ode ao Gato, onde admite que, apesar de entender do amor e da natureza da vida, não consegue decifrar o gato, o único animal que "nasceu completamente terminado, anda sozinho e sabe o que quer".
Gatos são tão independentes que dizem que todo gato escolhe o seu dono. Neste caso, Ernest Hemingway devia ter algum tipo de ímã ou possuir o charme de uma tigela de leite. A casa do escritor americano na Flórida, nos EUA, era um verdadeiro balaio de gatos: chegou a abrigar mais de 50 felinos.
Tudo começou com o gato Snowball, presente de um capitão de navio. O gato tinha polidactilia, ou seja, exibia dedinhos a mais, o que, para os marinheiros, era sinal de sorte. O escritor chegou a construir uma fonte no quintal para o conforto dos bichanos e deixou orientações em seu testamento para que cuidassem deles. Gerações de patinhas com dedinhos a mais ainda habitam o telhado da casa do escritor, onde hoje funciona um museu. Mas nenhuma tigela de leite ainda foi encontrada.
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